“Comecei a ver a luz ao fundo do túnel”. Alexandre libertou-se da dependência do álcool e está há dois anos sem beber
Durante mais de duas décadas, Alexandre Almeida viveu “com o álcool, para o álcool”. O que começou por ser uma alavanca para a socialização, ainda durante a adolescência, viria a tornar-se num vício, com a chegada à idade adulta. Amizades, vida profissional e relações familiares viriam a ser minadas pela dependência, que acabou por empurrá-lo também para a deterioração física.
Ao viver aquilo que ainda hoje chama de “inferno”, decidiu procurar ajuda. Primeiro, no Serviço Nacional de Saúde – um “penso rápido” que só resultou em mais culpa e frustração. Mais tarde, ingressou numa clínica em regime de internamento, onde passou 20 meses. O esforço revelou-se infrutífero – duas semanas após sair, voltou a beber.
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Chegou à The Clinic of Change sem esperança numa vida plena. Mas, após a primeira sessão de psicoterapia assistida por cetamina, sob a orientação da Dra. Magda Carvalho, psicóloga clínica, começou “a ver a luz ao fundo do túnel”. A abordagem personalizada do tratamento, bem como o trabalho em profundidade, ajudaram-no a reconciliar-se com o passado, a sarar o presente e a olhar para o futuro com um novo otimismo. A vida de Alexandre mudou e a todos aqueles que se deparam com o mesmo problema, deixa um conselho: “vale a pena continuar a tentar, sempre”.
LEIA O TESTEMUNHO DE ALEXANDRE ALMEIDA:
Quando e de que forma é que o álcool entra na sua vida?
O álcool entrou muito cedo. Indiretamente, já vivia com a questão do álcool, pela adicção do meu pai. Foi uma vivência, embora indireta, muito incisiva. Quando era mais jovem, com 13, 14 anos, os meus amigos bebiam e eu tinha muito pouca tolerância. Na altura, nem sequer pensava nisso como adicção.
Por volta dos 17 anos, sensivelmente, começámos a sair para ir às discotecas. Como era uma pessoa muito introvertida, encontrava no álcool uma forma de exteriorizar, de me relacionar melhor com as pessoas. Precisava dessa alavanca. Embora nessas alturas os consumos também não fossem muito elevados, já havia as misturas. Já havia a cerveja com outras bebidas, o Pisang Ambon com laranja, o rum com cola. Portanto, ali já se começava a preparar qualquer coisa, embora não tivesse sequer noção do que estaria para vir.
O pior, quando começou o início da queda, foi por volta dos 19 anos. Eu tinha conhecido a minha mulher e, por força das amizades, comecei a ter um estilo de vida diferente. Era um estilo de vida de sair à noite, de ficar acordado até tarde, de voltar a sair à noite. E o álcool foi entrando. O ponto de ruptura foi quando entrei numa armadilha. Casei, tinha 21 anos, e o meu primeiro trabalho foi num hotel, como barman. Foi a gota de água. Eu trabalhava sozinho no bar, tínhamos sempre um cocktail da semana, que eu tinha que elaborar, tinha que inventar. E por força da profissão, tinha que provar, para saber se estava de acordo. Isso foi andando, até que houve uma altura em que comecei a fazer também provas de vinhos. Vinhos do Porto, vinhos tintos, vinhos brancos.
Mas as coisas foram andando naturalmente, nem eu pensava em adicção. Embora eu estivesse a entrar nela, não tinha sequer consciência, porque era uma coisa natural, fazia parte do trabalho. Eu só realmente comecei a ter alguma preocupação quando comecei a tirar bebidas das prateleiras. Não tinha necessidade de fazer provas, não tinha necessidade de provar. E quando eu comecei com esses comportamentos, então sim, começou ali a soar um alarme. Depois, para agravar a situação, nós tínhamos um casal amigo e esse casal trabalhava também lá no hotel e saíam à mesma hora que nós. Começámos a ir sempre – praticamente dia sim, dia sim – a um bar.
Nessa altura comecei a beber e já começava com misturas grandes, já chegava a casa bastante alterado. Os meus comportamentos também já eram bastante mais… Como é que eu hei-de dizer? Já havia aquela ação do álcool, que era… Estava numa euforia enorme e, de repente, vinha por aí abaixo. E depois era a minha agressividade a falar. Graças a Deus, nunca fui agressivo fisicamente, mas psicologicamente fui. Fui durante muito tempo. E foi aí realmente que começou a minha grande descida, aquilo que chamo de inferno. Foi exatamente nessa altura.
NOTÍCIA SAPO: “Disseram-me que era um caso perdido e eu convenci-me que ia morrer.”
Essa adicção começou a ter impacto? No trabalho, nas amizades, naquilo que o rodeava?
Sim, teve bastante. Nas relações pessoais, fora da família, comecei a dar-me com aquelas pessoas que me faziam companhia, ou seja, que me acompanhavam na minha vida. Eu não conseguia dar-me com outras pessoas, porque não faziam o mesmo que eu, não se interessavam pelo mesmo que eu, que não queriam beber.
Acabei por me afastar dessas pessoas, pessoas que, tenho perfeita noção hoje, eram realmente as minhas amigas. Que tentaram, durante muito tempo, afastar-me. Mas cansaram-se, afastaram-se de mim. Depois eu também tinha comportamentos desviantes, porque pedia dinheiro emprestado, para não estar a pedir à minha mulher, para a minha mulher não saber. Entretanto, não pagava, depois iam dizer à minha mulher, e isso também foi uma das coisas que começou a contribuir para a degradação em termos familiares. Em termos profissionais, claro que teve impacto, porque não tinha a mesma produtividade no trabalho. Se estava ébrio, é claro que não tinha as mesmas reações. Eu disfarçava como sendo brincalhão, só que as pessoas, claro, com o tempo vão-se apercebendo – o hálito, os comportamentos, os desvios no bar também. A uma dada altura fui convidado a sair.
Mas não serviu de lição, porque posteriormente continuei a trabalhar em bares e hotéis. Ao início, estava sempre tudo bem, andava ali a portar-me bem. Aos poucos, começava outra vez a introduzir, ou seja, andei nesta roda viva durante muitos e muitos anos. Depois também faltava muito ao trabalho, porque não tinha dinheiro para beber, não tinha vontade de sair de casa, e então andava a passear pela cidade, e claro que isso depois também tem um impacto financeiro muito grande na vida familiar.
Porque quando já se tem um filho, uma renda para pagar, contas para pagar, e há menos um ordenado a entrar em casa, claro que quem está comigo, a minha esposa, não aceita. As discussões são constantes, eu saio de casa com raiva e depois vou beber, que era a minha forma de compensar. Depois, passava o dia fora de casa e, como tinha muitas tendências suicidas, era mais uma preocupação para a minha mulher. Eu tive muita sorte na vida com a pessoa com quem me casei, porque foi uma pessoa que nunca se cansou de lutar por mim, embora tenha estado prestes a desistir, sobretudo porque tinha um filho em casa, que na altura tinha três anos.
Quando o meu filho mais velho nasceu, houve ali uma altura que quebrei um bocadinho aquele estilo de vida do álcool, porque sempre quis ter um filho. Então, tentei comportar-me bem, mas foi sol de pouca dura, foi algo que durou talvez um ano e meio, no máximo. E o meu filho, por muito novo que fosse, começava a notar que o pai estava sempre a discutir, que estava a dormir, que saiu de casa, que a mãe ficou preocupada em casa a chorar. Passados seis anos, nasceram os meus filhos gémeos. Voltei a repetir a experiência do pai bem comportado, do pai que dava atenção aos filhos. E dava, efetivamente. Era eu que os levava à escola, era eu que os levava ao médico, era eu que passeava com eles à tarde. Mas depois havia sempre ali alguma coisa que faltava. Por muito que estivesse com os meus filhos, havia sempre ali qualquer coisa que…
Estava tão habituado àquela euforia do álcool, quando bebia libertava-me, e ali estava muito contido, estava ali com os meus filhos e parecia que não conseguia libertar-me daquilo. E então voltei, voltei ao mesmo. Naquele período sem beber, o meu filho mais velho começou a aproximar-se de mim, mas depois quando aconteceu a mesma coisa com os irmãos, ele afastou-se completamente. E o mesmo aconteceu com os mais novos, há sensivelmente três anos. Afastaram-se completamente de mim, não me falavam, ignoravam-me em casa e eu na altura sentia raiva, sentia raiva disso porque achava que eu é que era o coitado. No fundo eu também estava a sofrer, mas eles também estavam a sofrer com as minhas ações. E isso realmente degradou muito, durante muito tempo, a minha vida familiar.
Em que momento toma consciência de que tem um problema e precisa de ajuda para o tratar?
Já foi muito tarde. A minha consciência foi sempre a minha esposa, porque ela foi sempre fazendo força. Na altura, dizia que ela me estava sempre a chatear. Ela foi insistindo muito e, muitas vezes, ia só para lhe fazer a vontade, só para dizer que ia, para dizer que vou fazer um esforço. No fundo, não estava a fazer esforço nenhum, estava só a fazer a vontade para tentar calar a minha mulher, para não me chatear.
Ao final de um tempo, comecei a ter blackouts, perdi a noção do tempo, perdi a noção do que tinha acontecido dois dias antes, andava constantemente a tremer. Naquela altura, comecei realmente a preocupar-me um pouco comigo. Continuava sem parar de beber, mas resolvi tentar. Fui introduzido no Serviço Nacional de Saúde, percebi que tinha mesmo que procurar ajuda por mim mesmo. Mas sem mudar os comportamentos também não servia de muito, diga-se de passagem.
Procurou ajuda por outras vias antes de chegar à The Clinic of Change?
Muitas vias, muitas vias mesmo. Comecei no Serviço Nacional de Saúde. Infelizmente, o nosso país, em termos de saúde psiquiátrica, continua muito fechado. As pessoas ainda têm vergonha de dizer que foram ao psiquiatra, ao psicólogo, que estão a fazer um tratamento, a tratar a depressão. As pessoas têm muito receio de dizer isso, têm receio de ser julgadas, que pensem que são incapazes. Só que o Serviço Nacional de Saúde, agora pensando, era como tentar parar uma hemorragia com um penso rápido. É tudo à base da medicação. É adormecer a pessoa, não é tratar o problema a fundo.
Todos os nossos problemas, sejam de álcool, sejam os problemas que forem, eles têm sempre uma raiz, eles começam por algum lado. E eu, não bebendo, como disse, era muito introvertido. Tínhamos também umas sessões de grupo, mas não era um sítio onde me sentisse bem. Abandonava o tratamento, depois passado um, dois anos voltava. O que faziam era mudar a medicação, para ver se aquela dava resultado. Só que os anos foram passando e o resultado não aparecia, até que ouvi da minha psiquiatra dizer: “Alexandre, lamento, não sei mais o que é que podemos fazer por si.” Ou seja, deu a entender que era um caso perdido. Isso foi uma chapada muito grande, muito mesmo.
“Só que o Serviço Nacional de Saúde, agora pensando, era como tentar parar uma hemorragia com um penso rápido. É tudo à base da medicação. É adormecer a pessoa, não é tratar o problema a fundo.”
Perdi a esperança, quando ouvi uma psiquiatra que já me seguia há 18, 20 anos dizer-me isso. Vi que alguma coisa não estava bem comigo, nem a psiquiatra me conseguia ajudar, portanto, pensei: sou um caso perdido. A minha mulher, na altura, sentiu isso e ficou revoltada. Ela não desistiu. Fui para uma clínica privada, em Santarém, com o tratamento dos 12 passos, que é um tratamento que, por norma, tem uma duração de cerca de seis meses. Eu estive lá 20 meses e 20 dias.
O programa é um conjunto de passos lógicos de comportamentos que a pessoa tem que ir mudando. Mas cada caso é um caso e as coisas têm que ser adaptadas. Voltamos à questão da raiz do problema. Andei muito tempo a fazer trabalhos escritos e a partilhá-los em grupo. Olhando a frio, vejo que muitos deles não tinham nada a ver comigo. Eu escrevia tudo o que era suposto, tudo aquilo que sentia, tudo aquilo que tinha vivenciado, mas nada coincidia com aquilo que eu tinha, a minha raiz do problema, nada. Então, começava a subir, ficava tudo bem. Só que é a tal coisa – depois, voltava outra vez atrás, começava a ficar em baixo, começava a não tomar atenção a nada, a não fazer nada. E este percurso acabou por durar mais de 20 meses. E a prova de que não resultou foi ter saído da clínica e, 15 dias depois, ter voltado a beber. E voltei a beber bastante. Confesso que, nessa altura, pensei na conversa da psiquiatra do Serviço Nacional de Saúde. Cheguei à conclusão de que era mesmo um caso perdido. E no meio desse caminho continuaram a haver tentativas de suicídio, internamentos psiquiátricos. Foi um inferno muito grande.
É aí que encontra a The Clinic of Change?
É um pouco mais tarde. Penso que decorreram cerca de três anos. Mas até nem fui eu que procurei, estava derrotado. Não tinha vontade de procurar nada. Na minha cabeça era beber até morrer, ponto. Mas a minha esposa, mais uma vez, não desistiu. Andou a pesquisar na internet e viu este tratamento, que era bastante inovador, algo que praticamente não se tinha ouvido falar em Portugal, nem no Sistema Nacional de Saúde existia. Propôs-me e eu pensei: para estar a gastar dinheiro, não vale a pena. Depois, acabei por lhe fazer a vontade e vim até cá.
Cheguei aqui e senti um ambiente acolhedor. A forma de falar da Dra. Magda era muito calma, muito pausada, muito acolhedora. Senti aquela euforia que também existia com o álcool e fiquei cheio de vontade de começar. Marcámos a consulta e o primeiro tratamento para na semana a seguir. Mas no decorrer da semana, os pensamentos que me vinham à cabeça eram: eu vou estar a gastar dinheiro, isto não vai dar em nada. Aquela euforia deu lugar à depressão outra vez. Quando comecei o tratamento propriamente dito, já não vinha convencido sequer de que iria dar resultado. Claro que nunca verbalizei com a minha esposa, mas não tinha esperança.
Estava descrente da sua capacidade de vencer esta dependência.
Sim, essa descrença também… Eu tinha noção de que tinha uma dependência muito grande do álcool. Eu tinha perfeita noção disso. Mas se juntarmos a isso uma pessoa que nos diz que já não há nada a fazer e juntarmos 20 meses de internamento numa clínica privada… Foi muito tempo, muitas subidas, muitas descidas. As pessoas que lá estavam preocupavam-se genuinamente comigo, eu tenho noção disso. Mas cada caso é um caso, cada pessoa é uma pessoa, cada um tem as suas vivências, as suas formas de reagir. Os problemas têm uma fonte diferente em cada pessoa. E eu como não consegui nem num sítio, nem noutro, achava que não valia a pena, que não ia conseguir.
E era esse o seu principal receio perante a possibilidade de começar um novo tratamento? O facto de poder ser em vão?
Sem dúvida. Quando estamos no Serviço Nacional de Saúde, temos noção de como é que as coisas funcionam. Sabemos da lentidão dos procedimentos, da falta de personalização. Na clínica de Santarém, existia um pouco essa personalização, mas não o suficiente para explorar a raiz dos problemas. A Dra. Magda explicou-me como é que funcionava. Cresceu aquela euforia – finalmente uma coisa diferente. Mas essa crença foi-se desvanecendo. A nossa mente tem sempre tendência a ir buscar as coisas negativas, não as positivas. Como já tinha tendência para depressões, muito mais tentação tinha na altura. Graças a Deus, agora não tenho esse problema.
Ainda assim, avançou com o tratamento na The Clinic of Change. Como é que descreve essa experiência?
Confesso que a primeira sessão foi algo… muito alucinante. Quando me foi administrada a cetamina, não senti nada. Pensei que fosse sentir logo. Entretanto, a Dra. Magda sentou-se ao pé de mim, sempre com aquela voz suave, a falar comigo. Perguntou-me se estava à vontade, se não estava. Entretanto, fiquei com os olhos cobertos. Passado um bocado, dei por mim como se estivesse num mundo futurista. Sempre gostei muito de ficção científica, de informática e acho que a minha mente foi ali buscar essa parte. E nesse dia ficámos a falar do passado, uma coisa que eu sempre abominei. Não conseguia, trazia muito sofrimento. A violência que o nosso pai exercia sobre nós, física e psicologicamente, o sofrimento da minha mãe. A minha mãe também teve várias tentativas de suicídio. E eu estava muito, muito receoso de entrar nesse mundo.
“Não tinha vontade de procurar nada. Na minha cabeça era beber até morrer, ponto. Mas a minha esposa, mais uma vez, não desistiu. Andou a pesquisar na internet e viu este tratamento, que era bastante inovador.”
Começaram a vir muitas coisas ao mesmo tempo, não conseguia organizar as ideias. Parecia que estava perdido entre aquela viagem alucinante e as ideias que me iam aparecendo. Só passado um bom bocado é que a Dra. Magda me explicou. No final, não me trouxe sofrimento nem desconforto. As coisas continuam cá, nada do que eu vivenciei durante a minha vida desapareceu. É impossível desaparecer, faz parte de mim. Faz parte do meu caráter. Mas as coisas começaram a encaixar. Começaram a ser arrumadas.
E tive consciência de que no meio de toda a infelicidade que eu tinha tido enquanto criança e adolescente, também houve ali muitos momentos bons. Tive noção das brincadeiras que tinha com os meus irmãos e com os meus amigos, dos jogos à bola, de fazer quartéis. Das pessoas que sabiam do nosso sofrimento e que nos ajudaram bastante. A única coisa que me vinha à cabeça antes de começar a fazer o tratamento eram os aspetos negativos. Conseguir encontrar ali essas coisas positivas foi ótimo. Porque dei-me conta de que a minha vida não tinha sido tão linear, tão má como eu pensava.
A segunda sessão foi sobre o presente. O presente recente. Veio muito à ideia a questão dos meus filhos, dos meus comportamentos com a minha mulher, o gastar dinheiro. Todas as vezes que a minha mulher chorou. Todas as vezes que os meus filhos choraram e se agarraram a mim para que não saísse de casa. Foram coisas muito duras. Mas também consegui ir buscar coisas que fiz de bem. O tempo que estive com os meus filhos, que estive sóbrio, que os acompanhei. O facto de ter abdicado de trabalhar para estar com os meus filhos. A minha mulher estava efetiva, eu estava a contrato. Então, abdiquei de trabalhar para estar com os meus filhos. Houve coisas que fiz bem, mas é a natureza humana – lembrarmo-nos mais das coisas negativas do que das positivas. Sempre tive uma tendência muito grande nesse sentido.
A terceira sessão foi sobre o que eu projetava para o futuro. A primeira coisa de que me lembrei foi do desejo de ser avô. O meu filho mais velho já está casado e não sei se não será uma forma de recuperar aquilo que não dei aos meus filhos. E a segunda coisa em que pensei foi em conseguir ter uma vida plena, sentir as coisas boas ou más. Não ter vergonha de viver. Não ter vergonha de rir. Não ter vergonha de não beber para me poder relacionar com os outros. De poder recuperar as minhas amizades. E consegui. Fui conseguindo aos poucos. Levou tempo. Foram muitos anos a enganar as pessoas, muitos anos a verem o sofrimento que eu tinha causado à minha família. Toda a destruição que estava ali à minha volta. As pessoas já não acreditavam em mim, o que era perfeitamente natural. Foi uma boa luta – recuperar as amizades, recuperar a família, recuperar o meu próprio bem-estar, sentir-me bem comigo.
Quais é que diria que são as principais diferenças neste tratamento em relação aos que tinha experimentado anteriormente?
Este tratamento centra-se na pessoa, no Alexandre. Ali, o que se procura é saber o que o Alexandre pensa, o que o Alexandre quer, o que o Alexandre fez, o que o Alexandre não fez. Não estamos a falar do Pedro que está na sala ao lado, estamos a falar do Alexandre. E estamos à procura de onde é que começaram as coisas. Acho que isso foi o mais importante. Estar a fazer um tratamento em que nos dão uns medicamentos para adormecer não resolve nada. Eu só via sofrimento, não conseguia encontrar mais nada. Ali consegui, vendo que o tratamento se estava a centrar em mim. Também consegui ir buscar coisas boas, mesmo no meio do inferno. Comecei a perceber onde é que começaram os problemas e isso foi muito bom. Foi a primeira grande vitória.
Hoje, que papel é que considera que este tratamento teve na sua recuperação?
Foi extremamente decisivo. Depois da primeira sessão, comecei a acreditar em mim. Era uma coisa que eu já não sentia há muito tempo. Comecei a ver o que costumamos chamar de luz ao fundo do túnel. Aqui, após a primeira sessão, senti que estava a tomar um rumo. Já havia ali qualquer coisa em mim que estava a querer mudar. Eu próprio estava a ganhar vontade de sair daquele marasmo.
Houve outras mudanças ao longo do processo?
Depois da primeira sessão, ia com um alívio já grande. Mas a minha história não é só feita do passado. Também há o presente, seja ele recente, seja ele um pouco anterior. Isso também contribuía para agravar o problema. Era tudo uma bola de neve. Era ação e reação. Ou seja, fazia as coisas mal, fazia coisas erradas, depois ia beber para esquecer as coisas. Depois acabava a fazer coisas piores. Quando fiz a segunda sessão, percebi que, como eu próprio não conseguia encontrar a raiz dos meus problemas, continuava a bater ali nas mesmas situações, continuava exatamente a fazer o mesmo. Ganhar consciência disso contribuiu muito para ficar um pouco em paz comigo próprio.
“Eu só via sofrimento, não conseguia encontrar mais nada. Ali consegui, vendo que o tratamento se estava a centrar em mim, também consegui ir buscar coisas boas. Comecei a perceber onde é que começaram os problemas e isso foi muito bom. Foi a primeira grande vitória.”
Porque eu não conseguia viver o dia-a-dia. O meu dia-a-dia era sofrimento, era estar adormecido com o álcool. Ou seja, eu não sentia, não sentia nada. E foi a minha mulher que, ao conversar comigo, notou que sentia ali já alguma leveza, sentia-se uma descompressão do peito. Não estávamos ali tão presos.
Que ganhos é que estes dois anos sem álcool lhe têm proporcionado?
Recuperar, começar a recuperar as minhas relações pessoais. Em termos profissionais, ganhei responsabilidade. Já não tenho aquela necessidade de ir beber. Comportamento gera comportamento e se os nossos comportamentos começam a alterar, começam a ser mais sóbrios, mais positivos. A outra pessoa de lá também sente, a relação tem tendência a aproximar-se. Isso aconteceu primeiro com a minha mulher.
“E hoje em dia, vou para o trabalho e vou leve. Não vou preocupado com como é que lá vou chegar, não vou estar preocupado se as pessoas vão pensar isto ou aquilo de mim. Não tenho medo de me aproximar dos meus colegas, por estar com o hálito de álcool, ou por estar ébrio. É uma liberdade muito grande.”
Com os meus filhos foi muito mais difícil. Ainda hoje o estou a fazer, todos os dias faço um pouco, mas sinto que já há ali uma relação familiar que eu já não sabia o que era. Eu vivia com o álcool, para o álcool. E tudo o resto à minha volta fazia de conta que estava preocupado, quando a única coisa que me preocupava era o meu consumo. Mas ganhei muito, ganhei mesmo muito, muito, muito. Sobretudo na vida familiar. Porque, no fundo, estava a fazer aquilo que o meu pai fazia. Tirando a parte física, estava a fazer exatamente o mesmo que ele.
O tratamento deu-lhe também ferramentas para aplicar no dia-a-dia, mesmo depois das sessões?
Sim, fora das sessões também. A Dra. Magda ainda hoje me liga para saber como é que estou. Com a cetamina, a Dra. Magda ajudou-me ali a arrumar as gavetas. E isso foi uma grande ferramenta, porque não tenho de andar naquele rebuliço das minhas ideias, dos meus pensamentos. Isso dando-me paz de espírito, ajuda-me a organizar-me. Não tenho todo aquele peso, posso libertar-me. Isso foi uma das primeiras grandes ferramentas. A segunda ferramenta é não ter medo de errar. O errar faz parte do ser humano. A forma como reagimos ao erro é que não tem que ser tão… Não temos que nos deixar ir abaixo daquela forma. É conversar com alguém, falar com alguém. E era uma coisa que eu não fazia. Se tinha algum problema, não falava com ninguém, daí as tentativas suicídio muitas vezes. Hoje em dia, em vez de guardar as coisas para mim, aprendi a não ter medo e partilhá-las. Antes não dormia, andava cansado, irritadiço. Hoje em dia, consigo dormir bem.
Diria que hoje encara o futuro de forma diferente?
Totalmente. Quando ia trabalhar, na altura dos consumos, ia sempre com um peso na consciência. E ia sempre com medo de ser apanhado, de entrar alguém e reparar que eu estava alcoolizado. E hoje em dia, vou para o trabalho e vou leve. Não vou preocupado com como é que lá vou chegar, não vou estar preocupado se as pessoas vão pensar isto ou aquilo de mim. Não tenho medo de me aproximar dos meus colegas, por estar com o hálito de álcool, ou por estar ébrio. É uma liberdade muito grande. O facto de não nos sentirmos ali presos, com o peso na consciência. Isso é uma liberdade muito grande mesmo.
E que mensagem é que deixa a outras pessoas que estejam a passar pelo mesmo que passou?
Acho que isso depende de cada um. Infelizmente, há muitas pessoas em Portugal que continuam a sofrer bastante com este problema – seja adicção ao álcool ou a drogas. Vale sempre a pena continuar a tentar, por muito que nos mandem abaixo. Olho para mim, depois de todo este processo. Podia ter-me deixado ficar e deixar-me ir. Mas depois de ter feito este tratamento, vale a pena investir, vale a pena continuar a tentar sempre, sempre, sempre. Porque a recompensa que temos depois é muito grande. Libertamo-nos, temos uma vida plena, temos tudo a ganhar. Não importa se tento seis, sete, oito, dez vezes, não importa. Continuar o caminho, continuar a tentar. Isso também faz parte do crescimento. Recuperamos muita coisa, ganhamos muita coisa. E continuamos a ganhar todos os dias.
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