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França tornou-se o primeiro país do mundo a autorizar oficialmente o uso de cetamina intravenosa no tratamento de adultos em situação de crise suicida grave, numa decisão considerada histórica por especialistas em saúde mental e que representa um avanço significativo na gestão do risco de suicídio.

A aprovação, anunciada em março de 2026 pela agência reguladora francesa do medicamento – a L’Agence nationale de sécurité du médicament et des produits de santé (ANSM) –, representa um avanço relevante na resposta clínica ao risco iminente de suicídio. Até agora, não existia nenhuma alternativa farmacológica de ação rápida formalmente aprovada para estes casos urgentes.

Cetamina por via intravenosa: qual é o feito?

Ao longo da última década, vários ensaios clínicos e meta-análises demonstraram que uma ou duas administrações de cetamina em doses baixas (10 mg/mL) podem reduzir a ideação suicida em poucas horas, mantendo benefícios durante vários dias ou até mesmo semanas. Este efeito rápido distingue claramente a cetamina de antidepressivos convencionais, que geralmente demoram semanas a produzir resultados clínicos significativos.

Qual a diferença em relação à esketamina nasal?

Atualmente, a esketamina administrada por via nasal – sendo a esketamina uma variante da molécula da cetamina – já está aprovada em diversos países para casos de depressão resistente. No entanto, os estudos disponíveis não confirmaram um efeito relevante na redução da ideação suicida.

Segundo aponta a publicação científica The Lancet, existe ainda outro ponto a favor da utilização da cetamina racémica genérica, agora aprovada em França, nestes casos – o facto de ter um custo bastante inferior ao da esketamina nasal, o que poderá facilitar um acesso mais alargado.

Como se encontra regulada esta utilização em França?

A autorização francesa foi concedida no âmbito de um regime de acesso compassivo e será reavaliada dentro de três anos. O tratamento só poderá ser administrado em ambiente hospitalar, mediante prescrição de um psiquiatra e integrado num plano terapêutico mais amplo. A medida aplica-se a doentes adultos em crise suicida grave, independentemente de outros diagnósticos psiquiátricos associados.

Os especialistas alertam, contudo, que a cetamina não é uma cura definitiva. O efeito anti-suicidário tende a ser temporário, cerca de 10% dos doentes não apresentam melhoria e metade pode ter respostas variáveis ao longo de seis semanas, segundo um estudo de grande dimensão. Persistem ainda dúvidas sobre riscos de utilização prolongada ou uso indevido, razão pela qual os autores defendem sistemas rigorosos de farmacovigilância e registos clínicos nacionais.

Trata-se de um complemento, não de uma substituição

De acordo com a The Lancet, os investigadores sublinham que esta abordagem não deve desviar recursos de estratégias já comprovadas de prevenção do suicídio, como continuidade de cuidados, acompanhamento psicológico e acesso à psicoterapia. Ainda assim, consideram que esta aprovação pode ajudar a colmatar uma lacuna crítica entre o reconhecimento de uma crise suicida aguda e a disponibilização imediata de uma intervenção capaz de alterar o seu curso a curto prazo.

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