O Prof. Dr. Victor Amorim Rodrigues, psiquiatra, psicoterapeuta e diretor clínico da The Clinic of Change, foi entrevistado pelo Jornal Médico. A conversa abordou o panorama atual da saúde mental em Portugal, o papel crescente da neuromodulação e da psicoterapia assistida por cetamina no tratamento da depressão resistente e o potencial da medicina de precisão na personalização terapêutica.
O diagnóstico de Portugal
O ponto de partida é a realidade nacional. Amorim Rodrigues recorda que cerca de 8% da população portuguesa apresenta sintomas depressivos, que Portugal se situa acima da média europeia na prevalência das perturbações mentais e que o consumo de antidepressivos tem crescido de forma muito expressiva ao longo da última década. Reconhece que a saúde mental ganhou visibilidade e que existe hoje maior literacia e menor estigma – mas alerta que essa evolução nem sempre foi acompanhada pela diversificação das respostas terapêuticas, sobretudo para os doentes com formas mais complexas ou resistentes da doença.
TMS e psicoterapia assistida por cetamina: ampliar o arsenal terapêutico
Para o diretor clínico da The Clinic of Change, a Estimulação Magnética Transcraniana (TMS) e a psicoterapia assistida por cetamina não substituem os tratamentos convencionais – ampliam-nos. A TMS atua diretamente sobre os circuitos neuronais envolvidos na regulação do humor, sem recorrer a terapêutica sistémica, apresentando um perfil de tolerabilidade favorável e sem os efeitos adversos frequentemente associados aos antidepressivos, como o aumento de peso ou a disfunção sexual. O tratamento realiza-se em regime ambulatório, sem anestesia, e o doente retoma de imediato as suas atividades habituais.
Quanto à psicoterapia assistida por cetamina, Amorim Rodrigues é claro quanto ao que a distingue de abordagens meramente farmacológicas: “A intervenção farmacológica não constitui, por si só, o tratamento. O benefício clínico resulta da integração entre a administração da substância, a preparação psicoterapêutica, o acompanhamento durante a sessão e o trabalho de integração realizado posteriormente.” Na The Clinic of Change, um estudo observacional com 98 doentes submetidos a este programa registou reduções médias de nove pontos na escala PHQ-9 para sintomas depressivos, oito pontos na GAD-7 para ansiedade e oito pontos na WSAS, que avalia a incapacidade funcional.
Quando considerar estas alternativas?
Questionado sobre o momento certo para transitar para estas abordagens, Amorim Rodrigues rejeita a ideia de que devem ser encaradas como último recurso. Devem antes integrar um algoritmo clínico baseado na evidência, permitindo que cada doente tenha acesso à opção mais adequada no momento certo. “A verdadeira inovação consiste precisamente em oferecer uma medicina mais personalizada, abandonando modelos uniformes que nem sempre respondem à enorme heterogeneidade das perturbações mentais”, afirma.
Combater o estigma com transparência
Sobre o estigma que ainda rodeia estas intervenções, o psiquiatra é direto: a resposta passa pela transparência. Os doentes têm direito a compreender claramente em que consistem os tratamentos, quais os seus objetivos, quais as indicações clínicas e quais os resultados que realisticamente podem esperar. Esclarece igualmente que não se trata de “soluções de conserto rápido” nem de tratamentos “milagrosos” – são programas terapêuticos estruturados, realizados por equipas multidisciplinares, sujeitos a critérios rigorosos de seleção e monitorização.
O futuro da saúde mental em Portugal
Olhando para o futuro, Amorim Rodrigues identifica quatro prioridades: o desenvolvimento de protocolos clínicos nacionais bem definidos; o investimento na formação dos profissionais de saúde; um maior envolvimento de Portugal nas redes internacionais de investigação clínica; e um debate científico aberto, rigoroso e desprovido de preconceitos ideológicos por parte das sociedades científicas e das ordens profissionais. A conclusão resume a sua visão: “Devemos ser prudentes, mas não imobilistas por princípio. A prudência exige avaliação crítica, monitorização e exigência científica; não exige imobilismo.”
O artigo completo pode ser lido na edição online do Jornal Médico.


