A decisão chegou no final de agosto. Após meses de ponderação e anos de estudos, as autoridades reguladoras norueguesas aprovaram o financiamento público do tratamento com ketamina por via intravenosa em doentes diagnosticados com depressão resistente. Este é agora garantido pelo serviço nacional de saúde, em todos os hospitais, em todo o território do país, e em contexto de psicoterapia.
“É um dia positivo para os doentes com depressão resistente ao tratamento. Finalmente temos uma nova ferramenta ao nosso dispor. Trata-se de um grupo de doentes que tem sofrido durante muito tempo, que permanece doente durante anos, e que agora passa a ter uma nova opção terapêutica”.
Lars Lien, presidente da Associação Norueguesa de Psiquiatria, citado pela estação pública de notícias NRK.
Estima-se que, na Noruega, a depressão resistente a tratamento afete cerca de 30% dos doentes diagnosticados com depressão grave. “É importante que este tratamento decorra, para já, em hospitais e departamentos psiquiátricos, e no âmbito de registos ou estudos clínicos, até haver mais conhecimento sobre os efeitos a longo prazo”, afirmou Terje Rootwelt, presidente da entidade norueguesa que regula novos medicamentos e terapêuticas (Beslutningsforum), em comunicado de imprensa.
Agora o país assume a dianteira, tornando-se no primeiro a garantir uma comparticipação pública e universal da ketamina na qualidade de medicamento genérico, sempre que o diagnóstico for de depressão resistente a tratamento. Simultaneamente, a resolução tomada pela Noruega faz dela um exemplo na matéria, a ser seguido por outros países que continuam a debater-se com a extensão desta terapêutico aos cuidados de saúde universais.
Ketamina vs. terapia eletroconvulsiva
O tratamento da depressão resistente com recurso a ketamina por via intravenosa é agora uma possibilidade para todos os noruegueses, em hospitais públicos. Tal possibilidade ganhou força durante o mês de julho, quando o regulador norueguês para os produtos médicos (Norwegian Medical Products Agency) emitiu um parecer favorável, concluindo que a ketamina pode ser mais económica, mais eficaz e menos agressiva do que o tratamento atualmente recomendado, a terapia eletroconvulsiva.
Outra das vozes a congratular-se por esta decisão histórica é Lowan Stewart, diretor clínico da Axon, clínica privada que oferece tratamento para a depressão assistido por ketamina. Trabalha com a substância desde 2003. Em 2018, fundou a própria clínica, em Oslo.
“A ketamina é um dos tratamentos mais eficazes contra a depressão. Os efeitos secundários são ligeiros e desaparecem rapidamente. A terapia eletroconvulsiva apresenta mais riscos para os doentes, podendo causar perda de memória. Às vezes é reversível, outras vezes não. E a maioria dos doentes prefere fazer um tratamento com ketamina em vez de eletrochoques. Além disso, o custo para os hospitais é apenas metade do de uma sessão de terapia eletroconvulsiva”.
Lowan Stewart, citado pela NRK.
Até agora, o Hospital de Østfold, na cidade norueguesa de Gralum, era a única unidade pública a disponibilizar o tratamento da depressão resistente assistido por ketamina por via intravenosa. Fazia-o desde 2020, na qualidade de instituição com estatuto excecional conferido por entidades públicas. Desde então, nestes cinco anos, cerca de 400 doentes com depressão grave foram tratados em Østfold seguindo esta terapêutica. “No início foi avassalador. Recebíamos doentes de todo o país”, revelou Ingmar Clausen, chefe do departamento de psiquiatria deste hospital.
Aprovado para todo o país, o tratamento à depressão resistente assistido por ketamina off-label vai continuar a ser avaliado até ao final de 2028.
Portugal foi à frente
As notícias de avanço no território das terapias assistidas por psicadélicos chegam do extremo norte da Europa, mas Portugal foi um absoluto pioneiro nesta matéria, no contexto da União Europeia. Estávamos em 2021 quando, no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, começaram a ser tratados os primeiros doentes com recurso a ketamina, num hospital público português. Portugal foi, assim, o primeiro país da UE a tratar doentes com ketamina num hospital público.
Hoje, o recurso a este psicadélico estende-se a outros hospitais públicos do país. Em Lisboa, o tratamento é também administrado no Hospital Júlio de Matos e no Centro Clínico das Janelas Verdes. No Porto, já chegou ao Hospital de Magalhães Lemos e ao Hospital de São João.
Embora pioneiro na implementação do tratamento no sector público, Portugal – e o Serviço Nacional de Saúde – mantêm a psicoterapia assistida por ketamina como um tratamento condicionado, decidido doente a doente e não de acesso universalmente garantido, como já acontece na Noruega.
Em maio deste ano, o jornal Expresso deu conta de quase 600 doentes com depressão, tratados por esta via, em Portugal. As clínicas privadas representam a maior fatia. “Os resultados são promissores”, concluiu o semanário. Desde 2023 que a The Clinic of Change disponibiliza terapêuticas com recurso a psicadélicos no tratamento da depressão resistente, contando já com mais de uma centena de casos de sucesso nos últimos dois anos.
Consulte os nossos programas de Psicoterapia Assistida por Psicadélicos aqui.


