O psiquiatra e psicoterapeuta Prof. Dr. Victor Amorim Rodrigues, director clínico da The Clinic of Change, deu uma entrevista ao HealthNews, publicada a 9 de junho de 2026. A conversa abordou temas como os mecanismos neurobiológicos da cetamina, os resultados clínicos obtidos na The Clinic of Change nos últimos três anos e os desafios para integrar estas terapias no Serviço Nacional de Saúde. Com décadas de experiência em psiquiatria e psicoterapia, Victor Amorim Rodrigues é uma das vozes mais acreditadas em Portugal no que toca ao uso de substâncias psicadélicas no tratamento da depressão e de outras perturbações do foro mental.
Como atua a cetamina sobre a depressão?
O ponto de partida é a neurobiologia. Amorim Rodrigues explica que a cetamina atua como antagonista dos recetores NMDA do glutamato, promovendo rapidamente a sinaptogénese — o crescimento de novas sinapses — em regiões do cérebro criticamente afetadas pela depressão, como o córtex pré-frontal e o hipocampo. Este efeito surge em horas, ao contrário dos antidepressivos convencionais, que demoram semanas a produzir resultados. A substância interrompe também os padrões rígidos da Default Mode Network — a rede cerebral que, na depressão, alimenta a ruminação e o pensamento negativo persistente —, criando uma janela de maior flexibilidade cognitiva. É nessa janela que a psicoterapia atua. “A neuroplasticidade abre a janela; a psicoterapia orienta o que se faz com ela”, resume o psiquiatra.
Os resultados clínicos da The Clinic of Change sustentam esta abordagem. Num estudo retrospetivo com 98 pacientes, as taxas de resposta situaram-se nos 69% para a depressão e nos 68% para a ansiedade — valores que, segundo o psiquiatra, ficam muito acima do que a literatura descreve para as abordagens convencionais em casos de Depressão Resistente ao Tratamento, onde as taxas de remissão raramente ultrapassam os 30%. Para o diretor clínico, a diferença reside não apenas no mecanismo de ação da cetamina, mas no modelo integrado de intervenção: “Não tratamos a molécula isoladamente; tratamos a pessoa num contexto terapêutico estruturado.”
Esse contexto estrutura-se em três fases. Antes da administração, duas sessões de preparação permitem estabelecer a aliança terapêutica e mapear o terreno psicológico do doente. Durante a sessão, a presença terapêutica é ativa — o que emerge, sejam memórias, emoções ou insights, é tratado como material terapêutico. Depois, a integração: as sessões que se seguem à experiência são, para o especialista, “provavelmente a fase mais importante e negligenciada” em modelos que se focam apenas no efeito farmacológico. “Sem ela, os efeitos tendem a ser parciais e a deteriorar-se mais rapidamente”, adverte. O acompanhamento prolonga-se até um ano após o tratamento.
Que outras doenças do foro mental podem ser tratadas com recurso a psicadélicos?
A aplicação desta abordagem vai além da depressão. Victor Amorim Rodrigues refere resultados promissores no tratamento da perturbação do uso de álcool através do protocolo KARE, desenvolvido na Universidade de Exeter, que já está a ser implementado na The Clinic of Change. Aponta também o potencial da psilocibina para a anorexia nervosa — uma condição sem qualquer fármaco aprovado e com a maior taxa de mortalidade de todas as perturbações mentais —, embora reconheça que a investigação está ainda numa fase muito precoce e que o uso de psilocibina não é ainda permitido em Portugal.
No plano político, Amorim Rodrigues não poupa nas críticas. Refere a Noruega e a França como exemplos de inovação na regulação de psicadélicos — o primeiro país financiou a cetamina para a depressão resistente; o segundo avançou especificamente para casos de ideação suicida grave —, e defende que Portugal tem condições para seguir o mesmo caminho. A tradição de pragmatismo que esteve na base da descriminalização das drogas em 2001 poderia, diz, aplicar-se aqui. Mas é direto quanto ao que falta: “O que talvez falte é vontade política para que a saúde mental deixe de estar subfinanciada e de ser apontada como o parente pobre da medicina.” Para quem esgotou as opções convencionais, conclui, estas terapias não são uma alternativa experimental — são uma segunda oportunidade.
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