O psiquiatra britânico David J. Nutt esteve em Lisboa, por ocasião da 3.ª Conferência Científica da The Clinic of Change, onde abordou a evidência científica sobre o impacto dos psicadélicos na saúde mental. Em entrevista à revista SÁBADO, publicada a 2 de junho de 2026, o neuropsicofarmacologista do Imperial College de Londres, com meio século de investigação dedicado ao funcionamento do cérebro, defendeu que substâncias como a psilocibina, o MDMA e a cetamina podem transformar o tratamento da depressão e de outras perturbações mentais — e que os obstáculos que enfrentam são políticos, não científicos.
Os primeiros estudos do seu grupo de investigação datam de 2010 e foram publicados na Lancet Psychiatry em 2016, revelando alterações cerebrais com impacto direto no tratamento da depressão. Desde então, o corpo de evidência só cresceu. Nutt explica que estas substâncias atuam ao nível do córtex, quebrando padrões de pensamento profundamente enraizados e promovendo aquilo a que chama neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de aprender novas formas de pensar. No caso da cetamina, o protocolo que recomenda inclui dez sessões combinadas com psicoterapia e um ano de acompanhamento. Os resultados, diz, são claros: “Cerca de 70% parecem sair-se muito bem.”

A cetamina atua especificamente sobre o córtex, quebrando processos cerebrais profundamente enraizados. Nutt explica o mecanismo com uma imagem simples: na depressão, o pensamento está preso numa rotina. Após o tratamento, torna-se mais flexível. Se surgir um pensamento negativo, o doente consegue substituí-lo por um mais positivo. “O cérebro torna-se reativo à mudança”, descreve. É este estado de maior recetividade que torna a combinação com psicoterapia tão determinante — a substância não age sozinha, prepara o terreno para que a terapia funcione.
A utilidade clínica destas substâncias vai além da Depressão Resistente a Tratamento. Nutt descreve melhorias significativas em doentes com ansiedade, Perturbação de Stress Pós-Traumático (PTSD), Perturbação Obsessivo-Compulsiva (TOC), anorexia e dependência do álcool. Em todos estes casos, o mecanismo é semelhante: a substância torna o cérebro mais recetivo à terapia, permitindo que o doente se liberte de convicções e comportamentos que o mantinham preso. “Conseguem ter mais controlo sobre as suas decisões”, afirma, referindo-se especificamente a doentes com anorexia e TOC. “São capazes de se envolver melhor na terapia, de ver que os seus comportamentos e as suas convicções estão erradas.”
Para Nutt, o principal obstáculo não é a falta de evidência — é a resistência política. A maioria dos países continua a classificar estas substâncias de forma que inviabiliza o seu uso médico, ignorando décadas de investigação. “Políticas de drogas irracionais e não científicas negam o acesso a drogas como a psilocibina”, afirmou. “É escandaloso que tenha sido negado a tantas pessoas o acesso ao uso médico de substâncias psicadélicas. São 50 anos de censura.” Os governos, acredita o investigador britânico, resistem em parte por não quererem admitir que pessoas que se suicidaram poderiam ter sido tratadas.
O tema da segurança é recorrente no debate público sobre psicadélicos, e Nutt não o afasta. Questionado sobre a morte do ator Matthew Perry, conhecido pelo papel de Chandler na série Friends, que morreu em 2023 na sequência do consumo abusivo de cetamina, a resposta é direta: “Se ele tivesse tomado cetamina numa clínica, estaria vivo.” O problema, sublinha, não foi a substância — foi a ausência de supervisão clínica. Perry tomava cetamina em casa, sem acompanhamento, e excedia as doses. É precisamente por isso que Nutt defende o uso exclusivamente em contexto clínico controlado, com terapeutas experientes.
No plano internacional, aponta a Austrália como o país mais avançado, depois de há dois anos ter autorizado o uso clínico da psilocibina e do MDMA. Portugal, recorda, já deu um passo histórico com a despenalização do consumo recreativo de drogas, e Nutt defende que pode voltar a liderar: “Apelo a Portugal para se manter na liderança da reforma da política de drogas.” A ideia passa por reescalonar a psilocibina e o MDMA para uso clínico, com terapeutas experientes e em ambiente controlado — tal como foi feito na Austrália.

A investigação não pára. Nutt revela que o seu grupo está a iniciar dois novos ensaios com psilocibina: um para a dependência da heroína e outro para a adicção ao jogo. O efeito é semelhante ao da cetamina, mas ligeiramente mais intenso — razão pela qual o protocolo prevê apenas uma dose de psilocibina, em vez das cinco habitualmente administradas com cetamina. Os resultados preliminares apontam também para benefícios na anorexia e na fibromialgia. O LSD e a ayahuasca, bebida psicoativa tradicionalmente usada por povos indígenas da Amazónia, estão igualmente no horizonte da investigação.
A realidade portuguesa surge na conversa com dados concretos: 40% da população com mais de 16 anos sofre de ansiedade. Para Nutt, a resposta não passa imediatamente pelos psicadélicos. A primeira linha de atuação, defende, é dar às pessoas ferramentas de resiliência e aprender a lidar com fatores de risco contemporâneos, como o uso excessivo do telemóvel. Só quando a psicoterapia e a medicação convencional falharem é que substâncias como a cetamina devem entrar em cena. Mas quando chegam, podem fazer a diferença.
A ambição de Nutt estende-se também a contextos de conflito armado. Levou ao Parlamento Europeu, a 6 de maio, uma proposta para utilizar psicadélicos no tratamento de traumas de guerra, nomeadamente em veteranos ucranianos com PTSD — iniciativa que contou com o apoio do ex-ministro da Saúde da Lituânia e eurodeputado Vytenis Povilas Andriukaitis. Para quem perdeu a esperança nos tratamentos convencionais, conclui, estas substâncias representam uma segunda oportunidade: “São uma segunda opção, dando esperança às pessoas que a perderam com a medicina atual, como as que estão deprimidas durante 20 anos.”
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