No passado dia 10 de fevereiro, realizou-se o primeiro webinar Change Talks. De participação gratuita, revelou-se uma conversa acessível, clara e responsável em torno de dois grandes desafios com que nos deparamos hoje enquanto sociedade: a depressão resistente a tratamento e a dependência do álcool.
Sem nunca perder de vista a principal missão da The Clinic of Change – cuidar e preservar a saúde mental –, a conversa abordou temas tão pertinentes como os sintomas de ambos os problemas, a esperança trazida pelos avanços científicos na área dos psicadélicos, a importância da psicoterapia aliada a este tipo de tratamento e ainda a relevância de um acompanhamento profissional e especializado.
A conversa contou, por isso, com dois oradores, ambos elementos da equipa clínica da The Clinic of Change: o Prof. Doutor Victor Amorim Rodrigues, Diretor Clínico, psiquiatra e psicoterapeuta, e Dra. Carla Mariz, psicóloga clínica, psicoterapeuta e neuropsicóloga.
O que são psicadélicos?
A pergunta surge frequentemente no dia-a-dia da The Clinic of Change e, neste primeiro webinar, marcou o arranque da conversa entre os membros do painel.
“São substâncias que nós chamamos psicotrópicas, quer dizer que têm efeitos ao nível do sistema nervoso central e ao nível mental. E que vão induzir estados alterados de consciência, que envolve a emoção, a perceção, o pensamento. São usadas desde há milénios para efeitos rituais e, ultimamente, efeitos recreativos. Mas que se percebeu, desde os anos 60 e, sobretudo, agora já neste século, que têm um efeito e podem ser utilizadas com muita eficácia do ponto de vista terapêutico, nomeadamente em situações psiquiátricas”, começou por esclarecer o Prof. Doutor Victor Amorim Rodrigues.
Qual o impacto da depressão resistente na vida das pessoas?
É uma das doenças do foro mental que mais afecta a população portuguesa, mas também uma das situações em que a terapia assistida por psicadélicos tem permitido melhorar o dia-a-dia de muitas pessoas. Com a ajuda de ambos os especialistas, reunimos um quadro de sintomas frequentes de quem sofre com depressão resistente a tratamento.
“São pessoas que tiveram um impacto enorme na sua vida emocional. Isolaram-se. Deixaram de ter capacidade para trabalhar,
para se relacionar, para dormir bem, para ter prazer nas coisas mais simples da vida. A depressão resistente tem um impacto verdadeiramente terrível na vivência destas pessoas”, resume a Dra. Carla Mariz.
“Muitos não conseguem trabalhar, pura e simplesmente. Outros trabalham, mas arrastam-se, digamos assim. E têm uma ausência total de prazer na sua vida, o que se chama, tecnicamente, de anedonia, que é a ausência de prazer e que é uma coisa terrível. A pessoa, desde que se levanta até que se deita, está sempre a pensar: quando é que acaba isto, a minha vida é um tormento. Há pequenas atividades que nos dão prazer – para estas pessoas isso não existe”, completa Amorim Rodrigues.
Qual a importância da psicoterapia ao longo do tratamento?
Na The Clinic of Change, o protocolo de tratamento seguido compreende a administração da cetamina, psicadélico que permite aumentar a neuroplasticidade do cérebro, combinando-a com sessões de seguimento com psicoterapia.
“Eu diria que o mais importante é a psicoterapia e por isso é que é psicoterapia assistida por cetamina e não o contrário. Não é um simples tratamento com cetamina, contando apenas com os efeitos antidepressivos – que são, de facto, muito potentes – ou com efeitos de neuroplasticidade. Mas depois, sem ajudar a consolidar novas maneiras de funcionar, de pensar, de sentir, de ver as coisas… E essa é a parte da psicoterapia. Esta integração é fundamental. Uma coisa sem a outra fica, se quisermos, um bocadinho coxa”, continua a Diretor Clínico.
Quanto tempo demora até a pessoa começar a sentir-se melhor?
O webinar esteve também aberto a questões da audiência. Entre elas, uma sobre o tempo expectável para que um paciente com depressão resistente e em tratamento comece a notar resultados.
“É variável. Nós temos aquelas pessoas que, na primeira sessão, se sentem logo muito bem, mas que ainda estão a achar que pode ser algo transitório. Mas não é. Mas há pessoas que só se sentem bem no final. São chamadas late responders. Portanto, é variável. Cada caso é um caso”, clarifica a Dra. Carla Mariz.
Como é que o mesmo tratamento pode ser aplicado a casos de dependência de álcool?
Na conversa, os dois especialistas abordaram a dependência do álcool, também ela um problema que pode ser tratado com recurso a psicoterapia assistida por cetamina. “Temos, de facto, uma atuação ao nível do craving, que reduz muito esse desejo grande de beber. E permite trabalhar a recaída. Estamos a falar de tentar espaçar ao máximo o tempo de abstinência, para que as pessoas não tenham recaída. Aqui, a cetamina vai abrir possibilidades. Mas, mais uma vez, a parte de um milhão é a psicoterapia”, esclarece o Prof. Doutor Victor Amorim Rodrigues.
E qual a taxa de sucesso deste tratamento, quando aplicado a casos de dependência de álcool?
Os números falam por si. “Temos, de facto, valores muito encorajadores. Se nós pensarmos naquilo que são os tratamentos standard,
ao fim de um ano, temos taxas de recaída à volta de 75%. Portanto, só 25% das pessoas é que se mantêm abstinentes. E nós temos aqui taxas muito superiores a 50%“, remata Amorim Rodrigues.
Esta foi a primeira edição do Change Talks, uma conversa acessível, responsável e informada, em torno da saúde mental. Anunciaremos em breve a próxima edição e os respetivos temas a abordar. Até lá, veja ou reveja o webinar AQUI.
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