O jornal Público noticiou a 1 de agosto de 2026, num texto assinado por Amílcar Correia, que o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS) vai adotar um modelo de tratamento da depressão resistente baseado na combinação entre cetamina e psicoterapia. Segundo a publicação, é a primeira vez que um número tão alargado de unidades de um serviço público de saúde europeu adota esta abordagem em simultâneo – oito centros hospitalares do NHS britânico reuniram-se para fornecer a terapia aos seus doentes.
Um trabalho que começou em Portugal
O modelo adotado pelo NHS inspira-se no protocolo desenvolvido e testado no Hospital de Júlio de Matos, em Lisboa, e que já é utilizado em cinco hospitais portugueses. Pedro Castro Rodrigues, psiquiatra e investigador clínico no Centre for Psychedelic Research do Imperial College de Londres, sublinha ao Público o significado deste percurso: “O trabalho que desenvolvemos no Júlio de Matos foi muito importante, porque foi um dos sítios onde este modelo foi desenvolvido e testado num contexto de clínica real, dentro de um serviço público de saúde mental.”
O psiquiatra português vai mais longe: “Não foi um teste num laboratório privado, não foi numa clínica de luxo, foi no Serviço Nacional de Saúde português, com doentes reais, com equipas de psiquiatria e de psicoterapia que já existiam.”
Os resultados da experiência portuguesa, publicados na revista científica General Hospital Psychiatry, a par de ensaios realizados no Canadá e na Noruega, foram determinantes para que os especialistas britânicos adotassem o modelo. A terapia será aplicada na CIPPRes Clinic, um centro de investigação focado no estudo de substâncias psicadélicas e de psicofarmacologia experimental, que estabelece a ligação entre o Central North West London NHS Trust (CNWL) e o Imperial College de Londres.
A psicoterapia não é opcional
A decisão traz com ela o risco de ver a componente psicoterapêutica diluir-se no referido modelo. A indústria farmacêutica tem vindo a reduzir progressivamente esta componente nos ensaios clínicos, simplificando o processo regulatório e testando a substância como se fosse um medicamento convencional. Pedro Castro Rodrigues é direto quanto às consequências: “O problema é que os doentes não devem pagar o preço destas decisões estratégicas. A evidência diz-nos que a maioria dos ensaios com psicadélicos foram feitos, sobretudo os ensaios académicos, com psicoterapia, porque a janela de neuroplasticidade aberta pela substância precisa de uma direção terapêutica para produzir uma mudança duradoura.”
A adoção deste modelo pelo NHS abre ainda perspetivas para o futuro: uma vez adquirida experiência com a cetamina, as unidades de saúde poderão alargar a oferta a outras substâncias, como a psilocibina ou o MDMA. O parlamento britânico criou já a Comissão Feiding, precisamente para desenvolver um plano de integração da terapia assistida por psicadélicos no sistema de saúde mental do Reino Unido.
Portugal, pioneiro na Europa
Em 2021, o Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, começou a tratar os primeiros doentes com recurso a cetamina num hospital público português — tornando Portugal o primeiro país da UE a fazê-lo. Hoje, o tratamento estende-se a outros hospitais públicos: em Lisboa, é também administrado no Hospital Júlio de Matos e no Centro Clínico das Janelas Verdes; no Porto, chegou ao Hospital de Magalhães Lemos e ao Hospital de São João.
Apesar de pioneiro na implementação do tratamento no setor público, Portugal mantém a psicoterapia assistida por cetamina como um tratamento condicionado, decidido caso a caso e sem acesso universalmente garantido — ao contrário do que já acontece noutros países, nomeadamente na Noruega.
Desde 2023, a The Clinic of Change disponibiliza terapêuticas com recurso a psicadélicos no tratamento da depressão resistente, em Lisboa, contando já com mais de uma centena de casos de sucesso nos últimos dois anos. O modelo adotado — que combina cetamina e psicoterapia num protocolo estruturado e cientificamente validado — é precisamente o que o NHS britânico vai agora implementar em larga escala, confirmando o que a investigação e a prática clínica portuguesa já demonstravam.
O artigo foi original publicado no Público a 1 de agosto de 2026. Pode ler o artigo completo AQUI.
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