O Prof. Dr. Victor Amorim Rodrigues, psiquiatra, professor no ISPA e diretor clínico da The Clinic of Change, assinou um artigo de opinião publicado na edição de junho de 2026 da revista Saúde e Bem Estar (n.º 372). No texto, defende com clareza que Portugal não pode continuar à margem da revolução que os psicadélicos representam para a psiquiatria contemporânea.

O ponto de partida é a dimensão do problema. Cerca de 22% da população portuguesa vive com uma perturbação mental, segundo um relatório da OCDE de 2019 — e uma parte significativa desses doentes não responde aos tratamentos farmacológicos convencionais. A Depressão Resistente ao Tratamento é, nas palavras do autor, “um dos maiores desafios” da área, com muitos doentes a percorrer vários tratamentos sem recuperação funcional assinalável.

A evidência científica existe — e é robusta

É neste contexto que Amorim Rodrigues defende a Psicoterapia Assistida por Psicadélicos como uma resposta terapêutica legítima, eficaz e urgente. A cetamina — fármaco com propriedades antidepressivas comprovadas — promove a neuroplasticidade cerebral, permitindo a criação de novas ligações neuronais determinantes no tratamento de perturbações como a depressão e as adicções. Ao contrário dos antidepressivos tradicionais, que demoram semanas a atuar, a cetamina pode reduzir os sintomas depressivos em poucas horas.

O artigo destaca os resultados de uma investigação conduzida com 98 pacientes da The Clinic of Change, em Lisboa, que resultou numa tese de mestrado defendida no ISPA. Os dados revelam melhorias clinicamente significativas em três dimensões: os sintomas depressivos reduziram de um grau moderadamente severo para ligeiro; os sintomas de ansiedade desceram de moderados para ligeiros; e a incapacidade funcional melhorou de forma expressiva, com os doentes a recuperar capacidade para desempenhar atividades sociais, pessoais e profissionais.

Portugal não pode ficar para trás

Victor Amorim Rodrigues sublinha, contudo, que não se trata de uma solução universal. “A psicoterapia assistida por psicadélicos não constitui uma solução universal, nem substitui os tratamentos farmacológicos tradicionais”, escreve, acrescentando que cerca de 30% dos doentes não responde a esta abordagem. Trata-se, além disso, de uma intervenção muito exigente, conduzida por equipas multidisciplinares com protocolos rigorosamente estruturados e acompanhamento até 12 meses após o fim do tratamento.

O especialista conclui sem rodeios: “Ignorar o potencial terapêutico dos psicadélicos perante a evidência científica acumulada é irresponsável.” Países como a Austrália, a República Checa, a Noruega e a França já avançaram para a integração regulada destas terapêuticas nos seus sistemas de saúde. Portugal, defende o diretor clínico da The Clinic of Change, não pode ficar para trás. “Não exagero quando afirmo que a integração de psicadélicos em contexto clínico representou a maior revolução na psiquiatria dos últimos 30 anos.”

O artigo completo pode ser lido na edição online da revista Saúde e Bem Estar.