O Dr. Miguel Esteves Carneiro, médico psiquiatra da The Clinic of Change, falou em entrevista ao Notícias ao Minuto, numa peça publicada no rescaldo campeonato mundial de futebol, em pleno arranque do campeonato nacional e perante o crescente acesso a plataformas de jogo online. A conversa abordou os sinais de alerta do jogo patológico, os fatores de risco, as consequências para a saúde mental e as abordagens terapêuticas disponíveis.
O que é o jogo patológico?
O ponto de partida é claro: o jogo patológico não é uma fraqueza de carácter nem uma falha moral. É uma perturbação psicológica grave, progressiva e formalmente reconhecida pela Organização Mundial de Saúde, que envolve mecanismos neurobiológicos e emocionais bem documentados. “Ganhar no jogo ativa os mesmos circuitos cerebrais de recompensa do que drogas como a cocaína ou a heroína”, explica o psiquiatra. A perturbação caracteriza-se pela perda de controlo sobre o comportamento de jogar, mesmo quando a pessoa reconhece as consequências severas que daí resultam na sua vida pessoal, familiar, profissional e financeira.
Uma linha ténue — e cada vez mais difícil de ver
A fronteira entre o entretenimento e a adicção é, segundo Miguel Esteves Carneiro, extremamente ténue – e a sociedade atual torna-a ainda mais difícil de identificar. “O jogo deve ser visto como um problema assim que começa a interferir com o equilíbrio emocional, impactando negativamente o trabalho, as relações familiares ou a gestão do dinheiro”, afirma. Enquanto a pessoa consegue definir e cumprir limites claros de tempo e de dinheiro, o jogo mantém-se na esfera do lazer. Quando essas barreiras são sistematicamente quebradas, o comportamento evolui para uma perturbação adictiva.
Um dos maiores desafios na deteção precoce é aquilo que o psiquiatra designa de “normalização do desvio”. “A patologia camufla-se perfeitamente na norma social, uma vez que, hoje, praticamente toda a gente está a olhar para um ecrã, seja por trabalho ou lazer.” O jogo online agrava este problema. Está disponível a qualquer hora, no telemóvel, sem barreiras físicas e sem a perceção imediata do dinheiro que se está a perder.
Sinais de alerta a não ignorar
Os principais sinais de alarme incluem o aumento progressivo do tempo e do dinheiro dedicado às apostas, pensamentos frequentes sobre o jogo, a necessidade de apostar valores cada vez mais altos para obter o mesmo prazer, e a tentativa compulsiva de recuperar o dinheiro perdido com novas apostas. Também são preocupantes a associação do jogo à autoestima e a ocultação de movimentos bancários. Os familiares e amigos têm um papel fundamental: são frequentemente os primeiros a detetar quebras na rotina e gastos injustificados.
Quem está em maior risco?
Qualquer pessoa pode desenvolver esta perturbação, mas o risco aumenta perante fatores como antecedentes familiares, traços de impulsividade ou competitividade extrema, historial de depressão ou ansiedade, e situações de crise financeira ou emocional. Os jovens adultos e adolescentes são grupos particularmente vulneráveis, pela exposição precoce e pela facilidade de acesso. O psiquiatra sublinha ainda que o jogo patológico raramente é um problema isolado: “Funciona, antes, como a ‘solução’ disfuncional e o mecanismo de escape que o paciente encontrou para gerir um sofrimento invisível.”
As consequências de não tratar
Se não tratada, a perturbação pode ter consequências devastadoras. Além do colapso financeiro, há uma consequência neurobiológica silenciosa: a “inflação da recompensa”. As descargas massivas de dopamina exigidas pelo jogo online fazem com que os estímulos do quotidiano percam progressivamente o interesse – “a vida real passa a parecer neurologicamente aborrecida e cinzenta”, descreve o psiquiatra. Em termos clínicos, o desespero acumulado correlaciona-se com taxas muito elevadas de ideação suicida. O impacto na família é igualmente severo: mentiras constantes, instabilidade financeira e destruição dos laços de confiança.
O tratamento existe e é eficaz
Miguel Esteves Carneiro é claro: a perturbação do jogo tem tratamento e recuperação. Na The Clinic of Change, a abordagem combina psicoterapia especializada com suporte psicofarmacológico estruturado, desenhado à medida de cada doente. O objetivo terapêutico não é a abstinência digital total – “que é irrealista no mundo atual” –, mas sim a reconquista da “soberania digital”: capacitar o doente para ter uma relação consciente, intencional e autónoma com a tecnologia. O tratamento foca-se também em compreender o que está por trás da compulsão e em trabalhar os fatores emocionais que a alimentam e não apenas na interrupção do comportamento.
Grandes competições desportivas como fator de risco
Questionado sobre o impacto de eventos como o Mundial ou o arranque do campeonato de futebol, o psiquiatra não tem dúvidas: “Os dados atuais sugerem claramente que as pessoas estão a apostar mais e essa tendência intensifica-se de forma acentuada durante as grandes competições mundiais.” A omnipresença da publicidade e a associação do jogo ao desporto de alta competição criam uma falsa sensação de segurança e uma normalização social do comportamento. Para quem está em recuperação, este período representa um teste de extrema exigência e o acompanhamento terapêutico deve ser redobrado.
A conclusão de Miguel Esteves Carneiro é um apelo à responsabilidade coletiva: “À semelhança do que acontece com o consumo de álcool, o mesmo rigor tem de ser aplicado à perturbação do jogo. Sendo esta uma perturbação consensual e seriamente reconhecida pela comunidade médica, é nossa responsabilidade enquanto sociedade tratá-la com a máxima seriedade, investindo na prevenção e protegendo os cidadãos mais vulneráveis.”
O entrevista completa pode ser lida na edição online do Notícias ao Minuto.


