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No passado dia 24 de março, realizou-se o segundo webinar Change Talks. De participação gratuita, revelou-se uma conversa acessível, clara e responsável em torno de dois problemas atualmente presentes no quotidiano da nossa sociedade: a dependência do álcool e o jogo patológico.

Sem nunca perder de vista a principal missão da The Clinic of Change – cuidar e preservar a saúde mental –, a conversa abordou temas tão pertinentes como os sintomas de ambas as adicções, a esperança trazida pelos avanços científicos na área dos psicadélicos, a importância da psicoterapia aliada a este tipo de tratamento e ainda a relevância de um acompanhamento profissional e especializado.

A conversa contou, por isso, com três oradores, todos eles elementos da equipa clínica da The Clinic of Change: a Dra. Magda Carvalho, psicóloga clínica, o Dr. Guilherme Bastos Martins e o Dr. Miguel Esteves Carneiro, ambos médicos psiquiatras. Ao longo da conversa, estes especialistas responderam a várias questões relacionadas com os temas sobre a mesa, algumas delas colocadas por elementos da audiência.

A conversa arrancou em torno da dependência do álcool, com o retrato de um país que tem este consumo – muitas vezes diário – enraizado na própria cultural. O álcool é, atualmente, a substância psicoativa mais consumida em Portugal.

Como se caracteriza o consumo de álcool em Portugal e qual o seu impacto na saúde e na vida em sociedade?

“O grande perigo reside exatamente neste profundo enraizamento cultural. O álcool está omnipresente em múltiplas celebrações. E os dados demonstram que o primeiro consumo é precoce. A idade média do primeiro consumo situa-se nos 14 anos, o que do ponto de vista neurobiológico é problemático. Estamos a induzir uma substância que irá modular negativamente a área do córtex pré-frontal”, começa por referir o Dr. Miguel Esteves Carneiro.

Uma ideia reforçada pela Dra. Magda Carvalho. “Tem muito impacto em termos físicos. Há muitas doenças – hepáticas, cardiovasculares –, é a causa de muitos acidentes rodoviários, também domésticos. A longo prazo, traz muitas dificuldades em termos familiares, em termos de produtividade no trabalho, em termos de saúde mental e nós vemos isto na clínica. Na nossa prática clínica diária, percebemos realmente os impactos devastadores que o álcool tem”, resume.

O facto de a geração Z consumir menos álcool faz dela uma geração mentalmente mais saudável?

“Somos um país em que imperava um padrão de consumo com alcoolismos primários, portanto pessoas que desde criança bebiam. Para além da normalização do consumo, havia aqui também um impacto cerebral ainda mais precoce. Acho que houve um avanço. Aí as gerações mais novas passaram para um padrão de consumo mais próximo do centro e do norte da Europa, nomeadamente com um menor consumo diário. Hoje, temos um padrão global em que parece haver aqui uma redução do consumo de álcool. E ela pode estar relacionada com várias coisas, não necessariamente todas boas. A significar que os jovens estão mais distantes uns dos outros do ponto de vista relacional, diria que a diminuição do consumo de álcool faz parte do lado mau da moeda. Se estiver também relacionado com um modelo de alguma higiene social, higiene de saúde, algo moralizada, diria que não é uma coisa francamente positiva. Se calhar estamos a falar da geração que menos consome álcool, mas por outro lado são aqueles jovens que mais pontuam nos questionários de ansiedade. E estarão eles a substituir o álcool, por exemplo, pelas plataformas dos scrolls infinitos, com níveis de dopamina também eles muito imediatos?”, reflete o Dr. Guilherme Bastos Martins.

Quais as principais respostas terapêuticas e que vantagens e fragilidades apresentam?

“Na The Clinic of Change, percebemos que existe aqui a necessidade de uma resposta que seja diferente, que nos possa dar um outro tipo de resultados. A cetamina já foi bastante estudada no álcool. Os estudos mais recentes são aqueles que são feitos de uma forma mais controlada e que nos dão números que posso chamar de auspiciosos. Este protocolo que usamos é um protocolo que nos dá uma eficácia de 86% aos seis meses. Aquilo que temos tido até agora são resultados bastante interessantes, que nos dão alguma margem para acreditar que, no futuro, quando conseguirmos alargar a outro tipo de pessoas, vamos ter aqui uma arma terapêutica mais acessível à população em geral”, explica o Dr. Guilherme Bastos Martins.

“A psiquiatria clássica passa muito pela ideia da desintoxicação, de fechar a pessoa, isolá-la do seu meio, e depois encaminhá-la para uma comunidade ou iniciar fármacos aversivos ou que reduzam o craving do álcool. Isto responde, de facto, a muitos dos nossos pacientes, mas não responde a todos. É preciso não tratar o álcool como problema isolado, porque raras vezes o é. Há muito trabalho que é necessário fazer debaixo desse problema e é aqui que entra o programa, mas também a psicoterapia”, detalha o Dr. Miguel Esteves Carneiro.

O Dr. Guilherme Bastos Martins acrescenta: “Nós olhamos sempre para os comportamentos adictivos, independentemente da substância, como a raiz do problema. Naturalmente que não é. No fundo, eles amplificam de uma forma exponencial os problemas que o indivíduo já trazia antes. Normalmente, o comportamento adictivo surge como uma resposta, contraproducente, para uma coisa que já se passava anteriormente, um sofrimento psíquico, uma angústia. É uma história de trauma, que se vai mantendo ao longo do tempo. Se nós, quando programamos um tratamento, não tivermos isso como um dado adquirido, vamos estar sempre a acertar ao lado do alvo.”

Como é que é feito o acompanhamento de cada paciente durante a terapia assistida por psicadélicos?

“Na clínica temos o programa KARE, direcionado para pessoas com problemas relacionados com o álcool. Numa primeira fase, têm uma avaliação médica inicial, onde se percebe se estão abstinentes ou não. Isto é, para poder iniciar o tratamento, uma das condições é a abstinência. Conseguindo a abstinência através de medicação em ambulatório ou em internamento, podemos iniciar o programa. Existem sessões de preparação para estabelecer uma relação confiável e segura com o paciente. Servem também para fazer uma história clínica de acontecimentos de vida, de outros tratamentos, do que já foi tentado, do impacto que o álcool teve nas várias áreas da vida do paciente, nas relações familiares”, explica a Dra. Magda Carvalho.

E continua: “Depois temos as sessões de administração. Nessas, sou eu que acompanho o doente, tendo sempre o apoio da enfermagem e de um médico. No dia a seguir, ou 48 horas depois, no máximo, é feita a integração. Durante a sessão pode aparecer material – às vezes até material inconsciente, memórias reprimidas, emoções, sensações –, que é trabalhados nas sessões de integração. A partir daquele material, perspectivamos outras narrativas. E a cetamina vai ajudar ao promover a neuroplasticidade, o que é uma oportunidade importantíssima. Podermos perspectivar-nos de outra maneira, sentir alguma liberdade. As substâncias, nomeadamente o álcool, são uma prisão. Portanto, voltarmos a sentir-nos mais leves, mais libertos, tudo isto com o acompanhamento da psicoterapia.”

“Aquilo que percebemos na nossa prática clínica é que a psicoterapia permite um salto, não só quantitativo, na abstinência, mas também muito qualitativo naquilo que é a possibilidade de mudança, uma mudança que não está tão relacionada com o álcool, mas tem a ver com a exploração de coisas anteriores ao próprio álcool”, reforça o Dr. Guilherme Bastos Martins.

De que forma é que o vício do jogo tem ressurgido com o contributo de novas tecnologias?

Numa sessão dividida entre duas temáticas fulcrais, a segunda parte foi dedicada ao jogo patológico. O contexto deste problema na atual discussão em torno da saúde mental foi apresentado  pelo Dr. Miguel Esteves Carneiro. “Estamos perante uma epidemia de bolso. O problema do jogo não é novo. A excitação associada ao jogo é algo que está presente desde há centenas de anos, mas mudou. Houve mudanças, até na última década, que vieram transformar por completo o jogo. Antigamente a pessoa para jogar precisava de se deslocar fisicamente a um local, tinha de ser vista, havia até uma espécie de preconceito e estigma em relação ao jogo, que a prevenia muitas vezes de jogar. Era possível essa pessoa auto-excluir-se dos casinos. Agora, com o advento dos jogos online, temos uma transição que tem sido um verdadeiro desafio para as pessoas que trabalham na área das dependências”, introduz.

A introdução prossegue. “Muitos dos casinos online estão, de facto, regulamentados e é possível fazer uma auto-exclusão. Mas, nos últimos anos – e particularmente as gerações mais novas, que representam uma parte muito significativa na percentagem de jogadores em Portugal –, têm aparecido muitos casinos que podemos considerar ilegais e que acabam por aliciar estas pessoas com free spins, com entradas gratuitas no jogo, que muitas vezes não se verificam. Agora, o casino está na mão dos jovens 24 horas por dia.”

Das apostas desportivas aos esquemas, por vezes, fraudulentos promovidos por youtubers e produtores de conteúdo, o painel concorda num ponto: o jogo chega ao dia-a-dia dos jovens cada vez mais cedo. “Uma das questões tem a ver com a própria forma de publicitação destes casinos e destes formatos de jogo. Existe um ambiente juvenil na própria publicidade. Tudo é muito apelativo”, acrescenta o Dr. Guilherme Bastos Martins.

E quando é que deixa de ser apenas lazer e passa a ser um problema?

“As pessoas têm um desconforto emocional e procuram aliviar esse desconforto jogando”, assinala a Dra. Magda Carvalho. “Depois aparecem todas as consequências negativas – o tempo passado a jogar, o dinheiro que gastam –, mas continuam a jogar. Portanto, interromper este ciclo é difícil. Como no álcool, também o jogo está muito ligado às vulnerabilidades psicológicas de cada pessoa. No caso do jogo, também há muito uma relação com a questão da recompensa. Qualquer jogador tem sempre a ideia de que desta vez é, desta vez é que vai resgatar o dinheiro que perdeu.

“De facto, começa a ser um problema quando se entra numa coisa chamada chasing losses, ou seja, quando se começa a procurar recuperar o que se perdeu. Em consultas, vemos muitas histórias de pessoas que têm sorte no início. Tal como no primeiro consumo de substâncias, há um momento transformador e muito prazeroso. Depois as pessoas vão atrás desse momento, mas esse momento raras vezes volta a acontecer – e se volta, já há muito dinheiro perdido. É das fases mais complicadas da doença: a crença falaciosa de que se vai recuperar o que se perdeu”, adiciona o Dr. Miguel Esteves Carneiro.

“E aqui começa uma fase com algumas mentiras inocentes, ocultações deliberadas, algumas ausências prolongadas. Algumas pessoas começam a recorrer a linhas de crédito, as dívidas acumulam-se. Raras vezes isto é identificado precocemente pelas famílias, quando se apercebem, já o bolo é demasiado grande. Muitas vezes, estamos perante uma pessoa completamente desesperada, com ideias de morte, por não saber o que fazer às suas dívidas e porque mentiu descaradamente a várias pessoas. É, de facto, uma das adicções mais letais”, remata o Dr. Miguel Esteves Carneiro.

“Pela nossa prática clínica, percebemos que o jogo é um problema que está muito escondido. São doentes que nos aparecem em fases muito tardias das consequências, com consequências financeiras às vezes irreversíveis. Têm taxas de retenção no serviço de saúde muito baixas, para além do problema das adicções cruzadas. O álcool e o jogo, por exemplo, andam de mão dada, muitas vezes”, completa o Dr. Guilherme Bastos Martins.

Qual a resposta clínica a alguém com adicção ao jogo?

“Antes de mais, o primeiro passo é identificar o problema e procurar ajuda. O tratamento é individualizado, não há uma resposta que sirva a toda a gente. Mas na primeira consulta, temos de ser pragmáticos e conter de forma imediata. Muitas vezes, isso passa pela auto-exclusão. Sabemos bem que a auto-exclusão é possível nos casinos físicos e nos casinos regulados, mas é mais difícil fazê-lo nos casinos ilegais, da mesma forma que também é mais difícil viver sem smartphone. Em alguns casos, pode fazer sentido partilhar alguma da informação bancária com pessoas de confiança. O tratamento não passa por sermões moralistas ou proibições autoritárias. Muitas vezes, isso só gera mais resistência. Pode passar também por abordagens farmacológicas, se existir um quadro ansioso, um quadro depressivo, uma perturbação de hiperatividade ou défice de atenção. Tal como no álcool, ir à raiz do problema acaba por ter os melhores resultados”, responde o Dr. Miguel Esteves Carneiro.

Jovens viciados em videojogos estão mais vulneráveis a desenvolver jogo patológico?

“Muitos dos videojogos estão revestidos de jogo. Não envolvem dinheiro, mas vemos que os substratos neurobiológicos, as áreas ativadas dos mecanismos de recompensa são sobreponíveis a colocar dinheiro sem saber o que vai acontecer e na expectativa de poder receber algo. E os videojogos cada vez mais têm add-ons, o que se chama loot boxes, que são uma espécie de caixinhas que se abrem e que podem trazer um skin ou uma armadura para isto e aquilo. E muitos dos videojogos também têm dinheiro envolvido. Não é jogo diretamente, mas aquilo acaba por, inconscientemente, ficar na cabeça de muitos destes jovens que têm um uso problemático dos videojogos. Diria que, na idade adulta, só muda a idade, o dinheiro e as plataformas. O substrato está lá. Diria que sim, que há essa ligação.

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